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Thursday, 11-Aug-2005 00:00
Então ao Oniponente, em 17 de agosto, aprouve mostrar-nos uma nova praia, ao largo da qual ancoramos à légua e meia de distância e em seguida desembarcamos em alguns de nossos botes para ver se era habitada.
Descobrimos que a habitavam muitos nativos, piores que animais, como Vossa Majestade adiante verá.Mas, no início do desembarque, não notamos gente alguma, embora por inúmeros sinais soubéssemos que muitas pessoas ocupavam a orla. Tomamos posse da terra em nome do sereníssimo rei de Castela e a achamos muito amena, verde e de boa aparência. E stá a cinco graus fora da linha equinocial para o austro. No mesmo dia, tornamos aos navios. Padecendo de falta de lenha e água, concordamos em voltar àquela terra para proverr-nos do que era necessário e, estando a deliberar, vimos no cume de um monte pessoas que não ousavam descer: estavam todos nus e eram semelhantes, no rosto e na cor, aos povos já mencionados.
Fizemos todo esforço para que descessem e viessem tratar conosco, mas não logramos torná-los seguros a ponto de não desconfiar de nós. Conhecida essa obstinação e insolência, ao cair da noite voltamos aos navios, deixando em terra, visíveis, alguns guizos e espelhos e outros objetos. Quando viram que nos afastávamos, dando uns aos outros mostras de adimiração. Na ocasião, não nos provemos de nada a não ser de água.

Na manhã seguinte, dos navios vimos número maior ainda de pessoas que faziam, em vários locais, fogueiras e fumaça. Concluindo que com aquilo nos convidavam para ir até lá, desembarcamos em terra, onde vimos que havia chegado imensa quantidade de pessoas, que, porém, se mantinham bem distantes de nós, fazendo entrementes alguns sinais para que com eles adentrássemos a terra. Diante disso, dois de nossos cristãos imediatamente se dispuseram a enfrentar esse risco para descobrir que gentes eram e que riquezas ou espécies aromáticas possuíam, e insistiram tanto ao capitão da frota que ele anuiu ao que pediam. Eles, então, preparando-se para pôr em prática o que pretendiam, tomaram de seus pertences vários objetos pequenos com que pudessem adquirir os daquela gente e despediram-se de nós com ordem de voltar no máximo em cinco dias, que era o tempo que havíamos de esperá-los. E assim tomaram seu caminho terra adentro enquanto regressamos às naus, onde permanecemos a esperá-los por seis dias, durante os quais quase diariamnete novas gentes vinham à praia, mas nunca quiseram falar conosco.
No sétimo dia, dirigindo-nos outra vez à terra firme, percebemos que aquela gente trouxe consigo as mulhres. Assim que chegamos, logo enviaram muitas esposas para falar conosco, embora não estivessem inteiramente seguras a nosso respeito. Percebendo-o, concordamos em enviar até elas um de nossos jovens, que era valente e ágil, e para torná-lasmenos temerosas, entramos nos navios. Assim que desembarcou, misturou-se entre elas, que circundando-o, tocavam-no e apalpavam-no, maravilhadas por ele: eis que do monte vem uma mulher portando uma grande estaca, aproxima-se do jovem e , pelas costas, deu-lhe tamanho golpe com a estaca que, imediatamente, ele caiu morto ao chão. Num instante, outra mulheres o pegaram e pelos pés arrastaram-no ao monte.

Os homens que alí estavam, descendo à praia com arcos e flechas, puseram-se a disparar e infligiram tal terror em nossa gente --- os batéis em que estavam resvalavam na areia ao navegar, não podendo fugir com rapidez---, que ninguém então se lembrou de pegar em armas, de modo que muitas flechas eles dispararam até que desferimos quatro tiros de bombarda sem atingir ninguém. Ao ouvir o estrondo, todos em fuga correram de volta ao monte onde estavam as mulheres a esquartejar o jovem que haviam matado, enquanto nós olhávamos em vão, mas não era em vão que nos mostravam os pedaços que, assando num grande fogo que tinham aceso, depois comiam: também os homens, fazendo-nos sinais semelhantes, davam a entender que haviam matado e assim comido outros dois cristãos nossos, e exatamente por isso acreditamos que falavam a verdade. Esse ultraje ofendeu-nos a fundo, pois vimos com nossos próprios olhos a profanação com que trataram o morto. Por isso, mais de 40 de nossos homens tomaram a deliberação de descer todos em terra firme e impetuosamente atacá-los para tirar vingança de ação tão desumana, de ferocidade tão bestial. Mas o capitão da frota não permitiu e , assim agindo nosso comandante, apesar de termos sofrido injúria tão grande e tão grave, contra nossa vontade e com grande desonra, partimos dalí, sem puní-los.
EXTRAÍDO DO LIVRO '' NOVO MUNDO'' AS CARTAS QUE BATIZARAM A AMÉRICA, DE AMÉRICO VESPÚCIO, ED. PLANETA

CURIOSO NÃO ?!, ALÉM DE QUEREREM INVADIR, ESCRAVIZAR E ESTUPRAR... SE ACHAM COM MORAL DE ESTAREM CERTOS DE SUAS AÇÕES. PENA NÃO TERMOS REAÇÕES DESSE TIPO HOJE. SE QUISEREM MANTER O SEU LAR INTACTO DE INVASORES, QUE MELHOR FORMA PARA AGIR SENÃO ESSA?

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